Notícias da Mídia


SINAL VERMELHO

Publicado em: 19.08.2011

João Carlos Basilio

Presidente da ABIHPEC

Minha intenção principal com este artigo é levantar diversas questões que são de extrema importância atualmente. Muitas delas são de abordagem macro econômicas, mas refletem em toda a nossa economia e, por conseqüência, em nosso setor, de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (HPPC).

Um dos temas que abordarei causa grande preocupação para a nossa sociedade e está sendo amplamente divulgado na mídia por nossos economistas. Estou falando da extrema preocupação com o aumento da inflação, esse pesadelo com o qual convivemos durante tanto tempo. E de suas conseqüências para nosso dia-a-dia. O fantasma da inflação é realmente assustador para os brasileiros, que têm, em sua história, absurdos como a reprecificação galopante. Não podemos esquecer – exatamente para não repetir – da época em que um produto chegava ao caixa com preço diferente do da gôndola.

Já está acertado, infelizmente, o aumento da taxa de juros, na reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM), em abril. A ata do último encontro, em março de 2010, deixou claro que a taxa básica de juros, a Selic, deve mesmo subir. Alguns apontam para 0,5% de aumento, outros dizem que ela pode atingir até mesmo 0,75%, sobre um total que já chega a 8,75%

Não sou economista, nem realizo estudos mirabolantes para analisar os dados estatísticos para defender meu ponto de vista. Porém, sou um leitor assíduo. O que vejo, também como consumidor, empresário e cidadão, é que não existe necessidade de subir as taxas de juros. Por quê? Ora, convivemos hoje com uma taxa de juros das mais altas do mundo, o que por si só já é um absurdo. Então, por que aumentá-las? E mais, será que essa taxa terá o poder de segurar a temida inflação que, propagam, está por vir?

Não vejo nenhum foco inflacionário, em nenhuma área. O que ocorreu nesse primeiro trimestre do ano foi a chegada de chuvas devastadoras, que forçaram a alta dos preços dos alimentos de um modo geral. Sofreram principalmente os hortifrutis, que tiveram uma subida de preços demasiada, resultando em aumentos inflacionários pontuais.

Outros casos isolados, como os aumentos exagerados praticados no município de São Paulo nos transportes coletivos e no IPTU, também contribuíram para que a inflação atingisse picos considerados perigosos.

Também ocorreu um aumento no Etanol, mas por problemas da entressafra. No mais, não enxergo nenhuma preocupação maior, nem vejo aumento de demanda exagerada. Então repito, porque subir a taxa de juros?

A minha visão é de que a especulação sobre a nossa moeda vai aumentar, e o dólar vai cair. O dólar em queda segura a inflação. O que eu quero dizer com isso é que enxergo muito mais uma decisão que trará reflexos econômicos, mas é totalmente política. O Brasil precisar atrair ainda mais o mercado especulativo para valorizar a nossa moeda e não me parece que estejamos caminhando num rumo acertado para isso.

Olhando para esse cenário, não vejo o aumento de forma positiva para o Brasil, para a nossa sociedade e principalmente, para nossa economia. Ficaremos mais vulneráveis.

Quem poderia se manifestar contra isso? Nós, industriais. Sim, porque serão as indústrias em um primeiro momento a pagar um preço muito caro por essa decisão. Precisaríamos protestar,nos mobilizar para evitar esse mal maior.

Mas falta liderança, falta coragem. Nossa imagem, a dos industriais, assim como a dos políticos, está desgastada.

Deveríamos gritar aos quatro ventos, que essas medidas macro econômicas são cada vez mais sufocantes para nossas indústrias. Elas nos tiram a capacidade de competir internacionalmente.

Se essa mentalidade e estratégia governamentais continuarem, colheremos as conseqüências em curto prazo. Muito antes do que pensamos e gostaríamos.

Quem faz esse comentário representa um setor que completará 15 anos de crescimento real na casa dos dois dígitos. O mesmo setor que, em 2009 ultrapassou os 14% de aumento em valores, comparado ao ano de 2008. O setor não teria nada para reclamar, pois é sólido e apóia totalmente parte da política praticada pelo governo.

Como exemplo, cito a distribuição de renda. Venha o governo que vier, a distribuição de renda tem que continuar. É ela que garante o aumento do consumo e o desenvolvimento do nosso setor, gerando empregos e desenvolvimento da nossa economia internamente.

Porém, há um alerta: as importações em nosso setor cresceram, no acumulado do primeiro trimestre de 2010, 35,8% e somente no mês de Março evoluíram 45,8%. O sinal está vermelho para o setor de HPPC.