Principais lições deste artigo
● A PNRS estabelece metas crescentes de recuperação de embalagens, de 30% até 50% em 2040, o que torna a logística reversa um custo estrutural que precisa de cálculo e gestão contínuos.
● O custo por tonelada resulta da divisão entre o custo total do programa, que inclui frete, mão de obra, perdas de material, tributos e overhead, e o volume efetivamente recuperado, o que permite comparações e acompanhamento ao longo do tempo.
● Investir em ecodesign, modelos de refil, conteúdo reciclado, rotas mais eficientes e parcerias com cooperativas estruturadas tende a reduzir o custo por tonelada e a fortalecer a rastreabilidade.
● O Mãos Pro Futuro, programa setorial da ABIHPEC, recuperou cerca de 215 mil toneladas em 2025, estimou renda média de R$ 2.250 para cerca de 6 mil catadores e direciona a maior parte do orçamento diretamente às cooperativas.
● Para conhecer iniciativas, ferramentas e oportunidades de adesão ao programa Mãos Pro Futuro, acesse o site oficial da ABIHPEC.
Quem paga a logística reversa?
A responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos orienta a divisão dos custos da logística reversa de embalagens entre diferentes atores.
Na prática, três grupos assumem esse custo:
● Fabricantes e importadores: assumem a maior parcela, por meio de programas próprios ou de sistemas coletivos como o Mãos Pro Futuro. Esse valor costuma integrar o orçamento anual de sustentabilidade e conformidade.
● Consumidores: contribuem de forma indireta, por meio da precificação dos produtos, já que os custos de conformidade integram a estrutura de custos das empresas.
● Cooperativas de catadores: recebem remuneração por tonelada produzida, o que tende a transformar a logística reversa em fonte de renda e inclusão produtiva, e não apenas em um elo operacional da cadeia.
Essa distribuição influencia o modelo de governança. Programas que remuneram cooperativas de forma considerada justa e investem em infraestrutura costumam gerar resultados ambientais e sociais mais consistentes do que modelos baseados apenas na aquisição de créditos de reciclagem no mercado secundário.
Componentes de custo da logística reversa
O custo total da logística reversa de embalagens pós-consumo reúne diferentes variáveis. A tabela a seguir organiza os principais componentes, com base em referências do SINIR/Ministério do Meio Ambiente e na publicação institucional Beleza Sustentável (ABIHPEC, 2026):
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Componente |
Descrição |
Variáveis que influenciam |
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Frete reverso |
Coleta e transporte das embalagens pós-consumo dos pontos de geração até as cooperativas ou centrais de triagem |
Distância, densidade de coleta, modal, região |
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Mão de obra |
Triagem, separação por material e preparação para reciclagem nas cooperativas parceiras |
Produtividade da cooperativa, nível de mecanização, volume |
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Perda de valor do material |
Diferença entre o valor potencial do material reciclável e o preço efetivamente obtido na comercialização, considerando contaminação e mix de materiais |
Qualidade da separação na origem, mercado de reciclados, tipo de material |
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Tributos e encargos |
Incidência tributária sobre a operação de coleta, triagem e comercialização de recicláveis |
Regime tributário da cooperativa, estado de operação |
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Overhead do programa |
Gestão, tecnologia, auditorias, rastreabilidade, comunicação e despesas operacionais do sistema |
Escala do programa, nível de rastreabilidade exigido |
Esses componentes variam conforme o desenho do programa. No caso do Mãos Pro Futuro, cerca de 80% do orçamento anual, na ordem de R$ 40 milhões (Beleza Sustentável, ABIHPEC, 2026), é aplicado diretamente nas organizações de catadores, em infraestrutura, equipamentos e capacitação. O restante sustenta a operação nacional do programa.
Como calcular o custo por tonelada, passo a passo
O custo por tonelada de embalagem recuperada funciona como indicador central para comparar modelos de logística reversa e acompanhar a eficiência ao longo do tempo.
A lógica de cálculo segue a fórmula:
Fórmula base:
custo por tonelada = (custo total do programa no período) ÷ (toneladas efetivamente recuperadas no período)
O custo total do programa resulta da soma de todos os componentes descritos na tabela anterior: frete reverso, mão de obra nas cooperativas, perdas de valor de material, tributos e overhead de gestão.
Exemplo genérico: um fabricante de médio porte com meta anual de 500 toneladas de embalagens recuperadas, que opera por meio de um sistema coletivo, pode estimar seus custos diretos somando o valor pago ao programa por tonelada produzida pelas cooperativas, os investimentos em infraestrutura das cooperativas parceiras e os custos de gestão e rastreabilidade. O resultado por tonelada tende a variar conforme a região, o mix de materiais, como papel, plástico, vidro e metal, e o nível de estruturação das cooperativas parceiras.
Indicadores complementares a acompanhar:
● Custo por tonelada por tipo de material, como papel, plástico, vidro e metal
● Taxa de recuperação efetiva em relação à meta regulatória
● Percentual do orçamento aplicado diretamente em cooperativas
● Renda média mensal dos catadores parceiros, como indicador de inclusão produtiva
No Mãos Pro Futuro, a renda média mensal estimada dos catadores parceiros é de R$ 2.250 (Beleza Sustentável, ABIHPEC, 2026), valor acima do salário mínimo nacional de 2024, de R$ 1.412,00. Esse dado sugere que eficiência operacional e inclusão social podem caminhar juntas.
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Mãos Pro Futuro: o programa estruturante do setor
O Mãos Pro Futuro é o programa de logística reversa estruturante de embalagens pós-consumo do setor brasileiro de Beleza e Cuidados Pessoais. O lançamento ocorreu em 2006, quatro anos antes da PNRS, o que indica que o setor passou a considerar o pós-consumo de suas embalagens antes da obrigação legal. Em abril de 2026, o programa completou 20 anos e é reconhecido pelo SINIR/Ministério do Meio Ambiente como o maior programa estruturante de logística reversa sem fins lucrativos do Brasil.
Os resultados de 2025 reforçam essa posição (Beleza Sustentável, ABIHPEC, 2026):
● 215.015 toneladas de embalagens pós-consumo recuperadas, volume 34,7% acima da meta pactuada de 197.475 toneladas
● Composição do material recuperado: papel 49,2%, plástico 28,8%, vidro 13,3%, metal 8,6%
● Orçamento anual na ordem de R$ 40 milhões, com a maior parte aplicada diretamente nas cooperativas, conforme detalhado na seção de custos
● Mais de 230 organizações de catadores parceiras em todo o Brasil
● 6.584 catadores parceiros, sendo 55% mulheres, 42% homens e 3% pessoas trans
● Mais de 150 municípios atendidos, com presença em todos os 27 estados e no Distrito Federal
● 226 empresas aderentes, de seis setores industriais
● Mais de 1,5 milhão de toneladas acumuladas desde 2013 e mais de 5 milhões de toneladas de gases de efeito estufa evitadas no mesmo período
O programa recebeu reconhecimento da CEPAL-ONU em 2019 e 2021 como case de sustentabilidade, e da CNI/FIESP em 2025 como case de economia circular para América Latina e Caribe.
Logística reversa e economia circular cumprem papéis diferentes
Distinguir logística reversa e economia circular ajuda na tomada de decisão de gestão e no diálogo com reguladores. A logística reversa é o instrumento específico de responsabilidade compartilhada no pós-consumo, que estrutura coleta, triagem, reciclagem, rastreabilidade e atendimento às exigências regulatórias. O Mãos Pro Futuro representa essa abordagem em escala setorial.
A economia circular é um modelo econômico mais amplo, que começa antes do descarte, no ecodesign das embalagens, na escolha de materiais, na incorporação de conteúdo reciclado, nos modelos de refil, na redução de desperdício e na reinserção de materiais na cadeia produtiva. Quando políticas públicas tratam a circularidade apenas como metas pós-consumo, tendem a elevar custos sem garantir resultados ambientais proporcionais.
Estratégias de mitigação alinhadas à PNRS
A redução do custo por tonelada da logística reversa depende de decisões ao longo de todo o ciclo de vida do produto, e não apenas de negociação de frete ou de ganho de escala.
Algumas estratégias costumam ter impacto relevante:
● Ecodesign de embalagens: redução de peso, simplificação de materiais e eliminação de componentes considerados desnecessários tendem a diminuir o volume de embalagens a recuperar e a facilitar a triagem nas cooperativas, o que pode reduzir o custo por tonelada.
● Modelos de refil: embalagens refiláveis tendem a reduzir a geração de resíduos na origem e a aliviar a pressão sobre o sistema de logística reversa.
● Incorporação de conteúdo reciclado: o uso de material reciclado pós-consumo nas embalagens cria demanda para o material recuperado pelas cooperativas, o que fortalece a viabilidade econômica do sistema.
● Otimização de rotas de coleta: a concentração de pontos de coleta em municípios com maior densidade de geração costuma reduzir o custo de frete reverso por tonelada.
● Parcerias com cooperativas formalizadas: cooperativas com maior nível de estruturação operacional, com equipamentos, gestão e capacitação, tendem a entregar maior produtividade, menor custo por tonelada e rastreabilidade auditável.
● Adesão a sistemas coletivos multissetoriais: programas como o Mãos Pro Futuro diluem custos fixos de gestão, tecnologia e rastreabilidade entre múltiplas empresas e setores, o que pode tornar o custo por tonelada mais competitivo do que em sistemas individuais.
A efetividade dessas estratégias depende de regulação tecnicamente calibrada, com previsibilidade, segurança jurídica e transição gradual compatível com a infraestrutura disponível e com a capacidade real de fornecimento de materiais reciclados em escala e qualidade.
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Perguntas frequentes
O que é o PAC reverso e como ele se relaciona com os custos das empresas?
O Plano de Ação para Produção e Consumo Sustentáveis, o PAC, e os acordos setoriais derivados da PNRS definem metas e mecanismos para que fabricantes e importadores comprovem o cumprimento de suas obrigações de logística reversa. Para as empresas, isso se traduz em um custo estrutural que costuma ser gerenciado de duas formas.
Uma possibilidade é aderir a sistemas coletivos, como o Mãos Pro Futuro, que diluem custos entre múltiplos participantes e direcionam recursos diretamente às cooperativas. Outra possibilidade é adquirir créditos de reciclagem no mercado secundário, o que atende à obrigação formal, mas nem sempre gera o mesmo nível de impacto ambiental e social. A escolha do modelo influencia o custo por tonelada e a qualidade da rastreabilidade apresentada aos reguladores.
Quem efetivamente paga a logística reversa no setor de Beleza e Cuidados Pessoais?
O custo é compartilhado entre fabricantes, importadores e, de forma indireta, consumidores, por meio da precificação dos produtos. As cooperativas de catadores recebem remuneração por tonelada produzida, o que tende a posicioná-las como parceiras remuneradas do sistema, e não apenas como prestadoras de serviço.
No Mãos Pro Futuro, a renda média dos catadores parceiros supera o salário mínimo nacional, conforme detalhado anteriormente, o que reforça a visão de parceria produtiva. Esse modelo sugere que a logística reversa pode atuar como instrumento de inclusão produtiva, além de ferramenta de conformidade regulatória.
Como calcular o custo por tonelada da logística reversa na prática?
O custo por tonelada resulta da divisão entre o custo total do programa no período e o volume de toneladas efetivamente recuperadas. O custo total inclui frete reverso, mão de obra nas cooperativas, perdas de valor do material reciclável, tributos e overhead de gestão.
Para empresas que operam por meio de sistemas coletivos, o custo por tonelada tende a ser mais previsível e auditável, pois é definido contratualmente e distribuído entre múltiplos participantes. O monitoramento contínuo desse indicador, segmentado por tipo de material, como papel, plástico, vidro e metal, ajuda a identificar oportunidades de redução e a comparar o desempenho ao longo do tempo.
Qual a diferença entre economia circular e logística reversa?
Logística reversa é o instrumento específico de responsabilidade compartilhada no pós-consumo, que organiza a coleta, triagem, reciclagem e rastreabilidade das embalagens após o uso pelo consumidor. Economia circular é um modelo econômico mais amplo, que começa antes do descarte, no design das embalagens, na escolha de materiais, na incorporação de conteúdo reciclado, nos modelos de refil e na reinserção de materiais na cadeia produtiva.
O Mãos Pro Futuro é a referência setorial de logística reversa estruturante. Quando políticas públicas confundem os dois conceitos, tendem a reduzir a circularidade à imposição de metas pós-consumo, sem considerar a infraestrutura, a escala e a qualidade dos materiais necessários para que o sistema funcione de forma economicamente viável.
Como o Mãos Pro Futuro se diferencia de outros modelos de logística reversa?
O Mãos Pro Futuro opera como sistema permanente, e não como ação pontual. Atua prioritariamente com cooperativas e associações formalizadas, investe diretamente em infraestrutura e equipamentos, oferece capacitação técnica e de gestão e remunera as cooperativas por tonelada produzida, com rastreabilidade auditável.
A maior parte do orçamento é aplicada diretamente nas organizações de catadores, conforme demonstrado pelos resultados de 2025. O programa é multissetorial, com participação de seis setores industriais, e multimaterial, com foco em papel, plástico, vidro e metais, o que dilui custos fixos e amplia a escala de recuperação. Em 2025, o programa recuperou 215.015 toneladas, volume 34,7% acima da meta pactuada, com presença em todos os 27 estados brasileiros.
Sustentabilidade como competitividade
A logística reversa, quando estruturada de forma consistente, tende a deixar de ser apenas uma obrigação regulatória e a se tornar um componente de competitividade, reputação e diferenciação. Para o setor brasileiro de Beleza e Cuidados Pessoais, terceiro maior mercado consumidor do mundo, com exportações que ultrapassaram US$ 1 bilhão pela primeira vez em 2025 (Comexstat/MDIC-SECEX), a capacidade de demonstrar rastreabilidade, inclusão socioprodutiva e atendimento a metas crescentes da PNRS ganha relevância para acesso a mercados, investidores e parceiros internacionais.
O Mãos Pro Futuro, reconhecido pela CEPAL-ONU e pelo Ministério do Meio Ambiente, ilustra que é possível cumprir metas regulatórias, gerar renda para mais de 6.500 catadores parceiros, apoiar mais de 230 cooperativas e recuperar mais de 200 mil toneladas por ano em um modelo financeiramente estruturado e auditável.
Sustentabilidade, para o setor, integra a forma de gestão e o conceito de cuidado integral: cuidar das pessoas envolve também cuidar da origem dos insumos, das condições sociais da cadeia, dos impactos ambientais da produção e do destino das embalagens.
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