Economia circular no setor de Beleza e Cuidados Pessoais

Principais lições deste artigo

  • O setor de Beleza e Cuidados Pessoais movimenta cerca de R$ 200 bilhões anuais e cumpre metas regulatórias de recuperação de embalagens desde 2006.

  • Implementar economia circular envolve, dentre outros aspectos, mapear o ciclo de vida, redesenhar embalagens,  adotar soluções como refis, reduzir a pegada plástica, entre outras ações, de forma a diminuir a geração de resíduos na origem.

  • Modelos de reutilização, reabastecimento e logística reversa tendem a ampliar a vida útil dos materiais e podem aproximar o consumidor do cuidado com o meio ambiente.

  • Empresas que participam de programas estruturantes de logística reversa como o Programa Mãos Pro Futuro, costumam facilitar o cumprimento das metas da PNRS com maior eficiência ambiental e inclusão social.

  • Para saber mais sobre o setor, visite o site da ABIHPEC.

Roteiro deste guia

Este artigo apresenta sete etapas práticas para gestores de sustentabilidade, operações e marcas que desejam estruturar ou aprimorar a agenda circular em suas empresas:

  1. Mapeamento do ciclo de vida de produtos e embalagens

  2. Design para circularidade: materiais e refis

  3. Modelos de negócio circulares: reutilização e reuso

  4. Logística reversa e parcerias com cooperativas de catadores

  5. Educação do consumidor e vínculo com cuidado integral

  6. Monitoramento, ajustes e comunicação de resultados

Panorama regulatório: PNRS

A Lei nº 12.305/2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos entre fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes e consumidores. O  não cumprimento da legislação pode resultar em multas administrativas, suspensão das atividades e perda de licenças ambientais.

Para atender a essas metas e evitar penalidades, o setor precisa de um roteiro estruturado. As sete etapas a seguir sugerem esse caminho, começando pelo diagnóstico do que já existe.

Etapa 1: mapeamento do ciclo de vida de produtos e embalagens

O ponto de partida é conhecer o que entra e o que sai. Um mapeamento de ciclo de vida em formato simplificado identifica os materiais utilizados em cada embalagem, os volumes comercializados por categoria e os fluxos de descarte mais prováveis para cada canal de venda.

O checklist inicial para gestores costuma seguir uma sequência. Primeiro, é útil inventariar todos os SKUs por tipo de embalagem, como plástico, vidro, metal, papel ou composto. Em seguida, vale classificar cada embalagem em primária, secundária e terciária, pois essa distinção orienta o enquadramento regulatório. Com esse inventário, torna-se mais simples mapear canais de distribuição e o perfil de descarte por canal. A partir daí, a empresa pode identificar fornecedores de embalagens e sua capacidade de fornecer material reciclado e registrar o percentual atual de conteúdo reciclado por SKU para estabelecer uma linha de base.

  • Inventariar SKUs por tipo de material

  • Classificar embalagens em primária, secundária e terciária, e aquelas que efetivamente chegam ao consumidor final

  • Mapear canais de distribuição e perfil de descarte

  • Identificar fornecedores e oferta de materiais reciclados no mercado

  • Registrar percentual atual de conteúdo reciclado na composição das embalagens por SKU, se aplicável

Material

Exemplos no setor

Reciclabilidade geral

Plástico monomaterial (PEAD, PP, PET)

Frascos de shampoo, tampas

Alta

Vidro

Frascos de perfume, esmaltes

Alta

Metal (aço e alumínio)

Aerossóis, latas

Alta

Papel/papelão

Caixas, cartuchos

Alta

Etapa 2: design para circularidade com foco em materiais e refis

Projetar embalagens para circularidade tende a diminuir a geração de resíduos na origem. Um princípio recorrente é reduzir o número de materiais diferentes em uma mesma embalagem, o que costuma aumentar a chance de recuperação e reinserção na cadeia produtiva. Refis de cosméticos, que utilizam menos plástico para repor o conteúdo de produtos originais como hidratantes, sabonetes e maquiagens, aparecem como uma alternativa acessível para empresas de diferentes portes.

A transição para monomateriais pode ocorrer de forma gradual. Muitas empresas começam pelo redesenho das embalagens de maior volume comercializado, o que tende a gerar impacto mais rápido nas métricas de recuperação.

Etapa 3: modelos de negócio circulares com reutilização e reuso

Redesenhar embalagens é um passo relevante, mas modelos de negócio circulares costumam ampliar ainda mais o tempo de vida dos materiais. No setor de Beleza e Cuidados Pessoais, sistemas de reabastecimento em ponto de venda, programas de devolução de embalagens vazias e linhas de refil para categorias de alto giro ganham espaço.

Esses modelos se conectam ao conceito de cuidado integral. Quando o consumidor adota uma rotina de reabastecimento, devolve a embalagem, escolhe o refil e participa do ciclo, ele tende a incorporar o cuidado com o meio ambiente à rotina de autocuidado físico, mental e social. O gesto de se cuidar pode passar a incluir também as escolhas que impactam o entorno.

Etapa 4: logística reversa e parcerias com cooperativas de catadores

Estruturar logística reversa costuma ser um ponto central da economia circular no setor. O Programa Mãos Pro Futuro, reconhecido pelo SINIR e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) como o maior programa estruturante de logística reversa sem fins lucrativos do Brasil em 2023 e 2024, tornou-se um case de referência. Lançado em 2006, quatro anos antes da PNRS, o programa completa 20 anos em abril de 2026.

Em 2025, o Mãos Pro Futuro recuperou mais de 200.000 toneladas de embalagens pós-consumo. Desde 2013, o programa acumula mais de 1,5 milhão de toneladas recuperadas e mais de 5 milhões de toneladas de emissões de gases de efeito estufa evitadas, com metodologia baseada em GHG Protocol e ISO 14067. Essa operação apoia mais de 230 organizações de catadores, beneficia mais de 6.500 catadores parceiros e suas famílias em mais de 150 municípios brasileiros, e proporcionou renda média mensal estimada de cerca de R$ 2.250 em 2025, acima do salário mínimo nacional de 2024. Cerca de 50% dos catadores são mulheres e 3% são pessoas trans, o que reforça seu caráter de inclusão socioprodutiva. O Mãos Pro Futuro recebeu reconhecimento da CEPAL-ONU em 2019 e 2021, e foi destacado pela CNI e pela FIESP como case de economia circular para a América Latina e o Caribe em 2025.

Empresas que desejam estruturar ou ampliar sua logística reversa costumam encontrar na adesão a programas intersetoriais como o Mãos Pro Futuro um caminho eficiente. O programa reúne mais de 200 empresas aderentes e opera em todos os 26 estados, no Distrito Federal e nas 26 capitais brasileiras.

 Consulte o Relatório Anual do Programa Mãos Pro Futuro

Etapa 5: educação ambiental do consumidor e cuidado integral

Completar a circularidade depende da participação do consumidor. Comunicar de forma clara como separar e descartar, e por que essa prática importa integra a responsabilidade compartilhada prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos.

A conexão com o cuidado integral aparece de forma natural. O consumidor que cuida de si, tende a se interessar também pelo ambiente em que vive quando recebe informação acessível. Cuidado físico, mental e social e cuidado com o meio ambiente podem se reforçar mutuamente. Comunicações que tornam visível essa relação costumam gerar maior engajamento e adesão aos programas de logística reversa.

Etapa 6: monitoramento, ajustes e comunicação de resultados em economia circular

Manter o ciclo circular ativo requer revisão contínua. Um calendário anual pode incluir quatro momentos importantes para o cumprimento de metas: o levantamento de dados no primeiro trimestre, a análise de desvios em relação às metas da PNRS no segundo trimestre, o ajuste de processos e parcerias no terceiro trimestre e o relato transparente a stakeholders no quarto trimestre.

O relato tende a ganhar consistência quando inclui toneladas recuperadas e os percentuais de conteúdo reciclado na composição das embalagens, quando aplicável, que refletem o desempenho central, além do número de cooperativas parceiras e da renda gerada na cadeia de catadores, que evidenciam seu impacto social. A inclusão das emissões de gases de efeito estufa evitadas ajuda a quantificar o benefício climático gerado. A transparência nos resultados fortalece a credibilidade da empresa junto a reguladores, investidores e consumidores e pode reforçar o posicionamento do setor como agente do cuidado integral.

Saiba mais sobre Beleza e Cuidados Pessoais.

Perguntas frequentes

Quanto custa implementar um programa de logística reversa para uma empresa de médio porte?

O custo varia conforme o modelo escolhido. A adesão a programas intersetoriais já estruturados, como o Programa Mãos Pro Futuro, tende a ser mais acessível do que a criação de uma estrutura própria, pois os custos de infraestrutura, capacitação e rastreabilidade são compartilhados entre as empresas participantes.

Como comunicar as ações circulares sem incorrer em greenwashing?

A comunicação ganha robustez quando se baseia em dados verificáveis, com fontes identificadas e resultados passíveis de auditoria. Convém evitar afirmações genéricas, como “empresa sustentável”, sem respaldo em métricas concretas. Relatar tanto os avanços quanto os pontos de melhoria tende a demonstrar transparência e fortalecer a credibilidade. A participação em programas reconhecidos por organismos como o SINIR, o Ministério do Meio Ambiente e a CEPAL-ONU oferecem lastro institucional às comunicações.

Existe conexão entre economia circular e o bem-estar dos consumidores?

A conexão aparece de forma clara na PNRS, que vincula a gestão de resíduos à proteção da qualidade ambiental e ao bem-estar coletivo. No setor de Beleza e Cuidados Pessoais, produtos que chegam ao consumidor por meio de cadeias mais circulares, com menos desperdício, mais inclusão produtiva e menor impacto ambiental, podem reforçar o conceito de cuidado integral, que envolve as dimensões física, mental e social. O consumidor que participa de programas de devolução de embalagens ou escolhe refis tende a incorporar o cuidado ambiental à rotina de autocuidado, ampliando o sentido do gesto cotidiano.

Conclusão

Implementar economia circular no setor brasileiro de Beleza e Cuidados Pessoais trata-se de um processo estruturado, com etapas claras e ferramentas já disponíveis. O contexto regulatório estabelece metas progressivas que sugerem ação imediata. Os dados do setor mostram a escala e a responsabilidade já mencionadas, com faturamento em torno de R$ 200 bilhões, oportunidades de trabalho em milhões de postos e presença em 100% dos domicílios brasileiros. O programa Mãos Pro Futuro ilustra, com 20 anos de história e mais de 1,5 milhão de toneladas de embalagens recuperadas, que a transição circular pode ser viável, mensurável e geradora de valor social e econômico.

Cada etapa deste roteiro, do mapeamento de ciclo de vida ao relato de resultados, tende a conectar a agenda ambiental ao propósito central do setor: que os brasileiros possam cuidar cada vez mais de seu bem-estar físico, mental e social, fazendo suas vidas acontecerem de forma plena. Cuidar de si e cuidar do meio ambiente e do planeta podem caminhar juntos.

Cuidar para fazer acontecer. Conheça mais sobre o setor brasileiro de Beleza e Cuidados Pessoais

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