Metas de sustentabilidade na indústria de beleza brasileira

Principais lições deste artigo

●       O setor brasileiro de Beleza e Cuidados Pessoais movimentou R$ 175 bilhões em 2025 e exportou mais de US$ 1 bilhão, o que sugere que sustentabilidade tende a se consolidar como fator de competitividade.

●       As metas mensuráveis até 2030 incluem inventários de GEE, aumento gradual do conteúdo reciclado em embalagens até 40% em 2040 e iniciativas que apoiam a conservação da biodiversidade.

●       Economia circular e logística reversa são conceitos complementares. O programa Mãos Pro Futuro já recuperou mais de 1,5 milhão de toneladas de embalagens desde 2013.

●       Salões e PMEs podem incorporar práticas de sustentabilidade ao priorizar fornecedores aderentes ao Mãos Pro Futuro e insumos com origem rastreável em conformidade com o Marco da Biodiversidade.

●       Guias técnicos, dados setoriais e materiais de apoio estão disponíveis no site da ABIHPEC.

Panorama setorial e compromisso com o cuidado integral

O Brasil ocupa a terceira posição entre os mercados consumidores de Beleza e Cuidados Pessoais no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. O país registra US$ 37,4 bilhões em vendas sell-out e responde por 5,8% de um mercado global estimado em US$ 640 bilhões, segundo a Euromonitor International (2024). Também figura em quarto lugar em lançamentos de produtos, com 7.359 novidades em 2025, de acordo com o Mintel GNPD.

O setor se conecta ao conceito de cuidado integral, que considera bem-estar físico, mental e social. Cuidar das pessoas implica cuidar da origem dos insumos, das condições sociais da cadeia produtiva, dos impactos ambientais da produção, do destino das embalagens e da resiliência dos ecossistemas. A sustentabilidade, nesse enquadramento, tende a ser vista como extensão natural do propósito do setor, e não como agenda paralela.

Para coordenar essa agenda de forma estruturada, a ABIHPEC, Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, atua como porta-voz institucional do conjunto de empresas. A entidade reúne cerca de 400 associadas que representam aproximadamente 90% do PIB do setor. Fundada em 1995, completou 31 anos em março de 2026 e coordena programas estruturantes, publica guias técnicos e representa o setor junto a reguladores, governo e organismos internacionais.

Metas 2030: clima, circularidade, biodiversidade e inclusão

O setor organiza suas metas para 2030 em quatro eixos temáticos, com base em publicações institucionais da ABIHPEC, como Beleza Sustentável (2026) e a Trilha de Descarbonização do Setor (2023). A tabela a seguir apresenta os compromissos mensuráveis de cada eixo, seus horizontes temporais e as referências que os embasam:

Eixo

Meta

Horizonte

Fonte

Clima e descarbonização

Estruturar inventários de GEE (Escopos 1, 2 e 3) e buscar alinhamento a frameworks científicos como o Science Based Targets initiative (SBTi)

Trajetória contínua até Net Zero

ABIHPEC, Trilha de Descarbonização, 2023

Economia circular, conteúdo reciclado

Alcançar mínimo de 22% de conteúdo reciclado em embalagens plásticas em 2026, com aumento gradual até 40% em 2040, conforme o Decreto 12.688/2025

2026–2040

Decreto 12.688, outubro de 2025

Logística reversa

Buscar a recuperação de 32% das embalagens plásticas em 2026, com trajetória crescente até 50% em 2040, em linha com a PNRS e o Decreto 12.688

2026–2040

Decreto 12.688, outubro de 2025

Biodiversidade e bioeconomia

Contribuir para a conservação por meio de repartição de benefícios e apoio à proteção de áreas de floresta.

Acumulado até 2025

ABIHPEC, Beleza Sustentável, 2026

Inclusão social

Manter catadores parceiros com renda média mensal estimada acima do salário mínimo, com participação majoritária de mulheres

Resultado 2025

ABIHPEC, Relatório Mãos Pro Futuro, 2025

A agenda climática tende a ser tratada pelo setor como tema de eficiência, gestão de riscos e acesso a mercados, e não apenas como obrigação de reporte. Descarbonização, energia renovável, logística eficiente e inovação em embalagens aparecem como elementos de competitividade. A ABIHPEC compensou suas emissões institucionais de 2023 por meio de créditos de carbono REDD+ em projetos nas regiões amazônica, no Acre, e do cerrado, em Goiás, e participou da COP28, em Dubai, da COP29, em Baku, e da COP30, em Belém.

Economia circular e logística reversa: conceitos e distinções

Economia circular e logística reversa têm papéis diferentes na sustentabilidade do setor, embora muitas vezes sejam tratados como sinônimos no debate público. A distinção entre os dois conceitos ajuda a organizar melhor políticas e investimentos.

Economia circular é um modelo econômico amplo de geração e retenção de valor. Esse modelo começa antes do descarte, no ecodesign das embalagens, na escolha de materiais, na redução de peso e complexidade, no aumento da reciclabilidade, na incorporação de conteúdo reciclado, em modelos de refil, em inovação de processos e em ações de educação do consumidor. Uma política circular consistente tende a considerar infraestrutura, escala, qualidade dos materiais, viabilidade econômica, segurança sanitária e existência de mercado para reciclados.

Logística reversa é um instrumento específico de responsabilidade compartilhada no pós-consumo. Envolve coleta, triagem, reciclagem, rastreabilidade e atendimento às exigências regulatórias. A logística reversa compõe a circularidade, mas não esgota o conceito. O Decreto 12.688, publicado em outubro de 2025, ampliou as obrigações de logística reversa para embalagens plásticas e definiu metas progressivas de recuperação, que iniciam em 32% em 2026 e chegam a 50% em 2040, e de conteúdo reciclado mínimo, que iniciam em 22% em 2026 e chegam a 40% em 2040.

O Mãos Pro Futuro representa a logística reversa estruturante do setor. O programa foi lançado em 2006, quatro anos antes da Política Nacional de Resíduos Sólidos, completou 20 anos em abril de 2026 e é reconhecido pelo do Ministério do Meio Ambiente, como o maior programa estruturante de logística reversa sem fins lucrativos do Brasil. Em 2025, recuperou cerca de 215 mil toneladas de embalagens pós-consumo, superando a meta de 32% e fração estabelecida pela Política Nacional de Resíduos Sólidos.. O acumulado desde 2013 supera 1,5 milhão de toneladas, com mais de 5 milhões de toneladas de gases de efeito estufa evitadas, em estimativas baseadas em GHG Protocol e ISO 14067.

O programa direciona a maior parte de seu orçamento anual diretamente às organizações de catadores. Seus quatro pilares operacionais são:

  1. Estruturação: investimentos em infraestrutura e equipamentos das cooperativas parceiras.

  2. Capacitação: assessoria técnica e apoio à gestão e ao empreendedorismo nas cooperativas.

  3. Educação ambiental: orientação ao consumidor sobre separação e destinação adequadas dos materiais recicláveis.

  4. Renda: pagamento por tonelada produzida, com rastreabilidade e foco em remuneração justa.

O Mãos Pro Futuro é conduzido pela ABIHPEC em conjunto com ABIPLA, ABIMAPI, ABRAFATI, Abióptica e ADIPEC, o que reúne seis setores aderentes e 226 empresas participantes em 2025. O programa recebeu reconhecimento da CEPAL-ONU em 2019 e 2021 como caso de sustentabilidade e da CNI/FIESP em 2025 como caso de economia circular para América Latina e Caribe. Esse reconhecimento reflete o alcance do programa, que atende 14 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Acesse os guias técnicos sobre economia circular e logística reversa

O que é sustentabilidade na beleza?

Sustentabilidade no setor de Beleza e Cuidados Pessoais tende a ser entendida como integração entre cuidado com pessoas, responsabilidade ambiental, inovação e impacto social ao longo de toda a cadeia produtiva. Esse entendimento vai além de embalagens recicláveis ou selos verdes e inclui a origem dos insumos, as condições de trabalho, a gestão de emissões, o destino das embalagens pós-consumo e o fortalecimento de comunidades e territórios.

O Brasil reúne entre 15% e 20% da biodiversidade mundial, o que posiciona o setor como protagonista em bioeconomia. Óleos, manteigas e derivados naturais de ativos amazônicos, do cerrado e da Mata Atlântica podem se tornar insumos de alto valor agregado quando combinados com tecnologia, rastreabilidade e processos industriais rigorosos. A biodiversidade brasileira funciona como base de inovação, diferenciação internacional e desenvolvimento territorial, e não apenas como fonte de matéria-prima.

Essa visão se conecta ao insight central do setor: quem se cuida por inteiro, faz a vida acontecer por inteiro. O cuidado consigo tende a incluir o cuidado com o entorno, com as pessoas que trabalham na cadeia, com as comunidades fornecedoras de ingredientes e com os catadores que recuperam embalagens. A sustentabilidade, nesse contexto, se apresenta como desdobramento do conceito de cuidado integral, que envolve bem-estar físico, mental e social.

O Instituto ABIHPEC, em operação desde 2013, expressa essa dimensão social ampliada. Projetos como De Bem Com Você, A Beleza Contra o Câncer, que oferece oficinas de automaquiagem e  autocuidado a pacientes em tratamento oncológico, e Beleza Negra, voltado à qualificação de empreendedores afrodescendentes, ilustram como a sustentabilidade no setor também se relaciona com autoestima, inclusão e desenvolvimento humano.

Como salões e PMEs podem implementar práticas de sustentabilidade

Salões de beleza e pequenas e médias empresas do setor podem ter papel relevante na agenda de sustentabilidade. A implementação prática costuma começar por escolhas operacionais e de fornecimento, sem necessidade de grandes investimentos iniciais.

Na logística reversa, salões e PMEs podem:

●       verificar se os fornecedores de produtos utilizados são aderentes ao Mãos Pro Futuro ou a outros programas estruturantes de logística reversa reconhecidos pelo SINIR e pelo Ministério do Meio Ambiente;

●       orientar clientes sobre a separação e a destinação adequadas das embalagens pós-consumo, contribuindo para a educação ambiental na etapa final do consumo;

●       priorizar fornecedores que ofereçam embalagens com conteúdo reciclado ou sistemas de refil, em linha com as metas do Decreto 12.688/2025;

●       registrar e monitorar o volume de resíduos gerados no estabelecimento, como passo inicial para uma gestão mais eficiente.

No sourcing de biodiversidade, salões e PMEs podem:

●       priorizar produtos que utilizem ingredientes com origem rastreável e em conformidade com o Marco da Biodiversidade, Lei nº 13.123/2015;

●       consultar o Guia ABIHPEC para Uso Sustentável da Biodiversidade Brasileira, de 2025, para orientação sobre acesso responsável a ativos naturais;

●       valorizar fornecedores que comprovem repartição de benefícios com comunidades fornecedoras de ingredientes da sociobiodiversidade.

A efetividade dessas práticas costuma depender de regulação tecnicamente calibrada, com previsibilidade, segurança jurídica e transição gradual compatível com a infraestrutura disponível. O setor sugere que boas regras tendem a induzir investimento e que a harmonização entre esferas federativas contribui para evitar sobreposição de obrigações e insegurança operacional.

Consulte os guias práticos de sustentabilidade para PMEs e salões

Perguntas frequentes

O que diferencia economia circular de logística reversa no setor de Beleza e Cuidados Pessoais?

Economia circular é um modelo econômico amplo que começa no design do produto, na escolha de materiais, na redução de peso das embalagens, na incorporação de conteúdo reciclado, em sistemas de refil e em inovação de processos. Logística reversa é um instrumento específico de responsabilidade compartilhada no pós-consumo, voltado a estruturar a coleta, triagem, reciclagem e rastreabilidade das embalagens depois que chegam ao consumidor. O Mãos Pro Futuro é o principal programa estruturante de logística reversa do setor, reconhecido pelo Ministério do Meio Ambiente como o maior programa sem fins lucrativos do país nesse campo. Os dois conceitos se complementam, e políticas públicas que consideram apenas metas pós-consumo tendem a não capturar toda a dimensão do modelo circular.

Quais são as metas concretas de recuperação de embalagens para o setor até 2030?

O Decreto 12.688, publicado em outubro de 2025, estabelece metas progressivas de recuperação de embalagens plásticas e de conteúdo reciclado mínimo. As metas de recuperação iniciam em 32% em 2026 e chegam a 50% em 2040. As metas de conteúdo reciclado iniciam em 22% em 2026 e chegam a 40% em 2040. O Mãos Pro Futuro, programa multimaterial do setor, já superou sua meta de 2025 recuperando cerca de 215 mil toneladas de embalagens pós-consumo no ano, incluindo papel, plástico, vidro e metal. O cumprimento das metas regulatórias costuma depender de infraestrutura adequada, escala de coleta, qualidade dos materiais recuperados e existência de mercado para reciclados.

Como a biodiversidade brasileira se conecta à sustentabilidade do setor?

O Brasil concentra entre 15% e 20% da biodiversidade mundial, o que tende a posicionar o setor de Beleza e Cuidados Pessoais como ator relevante na bioeconomia. Ativos da sociobiodiversidade, como óleos e manteigas de origem amazônica, do cerrado e da Mata Atlântica, podem ser transformados em insumos de alto valor agregado por meio de tecnologia, rastreabilidade e processos industriais rigorosos. Essa relação vai além do uso de ingredientes, pois o setor direciona recursos para ações de conservação via repartição de benefícios, apoia a proteção de áreas de floresta e contribui com o Fundo Nacional de Repartição de Benefícios. A ABIHPEC participa do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, o CGEN, desde 2017 e publicou o Guia para Uso Sustentável da Biodiversidade Brasileira, atualizado em 2025.

O que é o Mãos Pro Futuro e qual é o seu impacto social?

O Mãos Pro Futuro é o programa estruturante de logística reversa do setor de Beleza e Cuidados Pessoais. Com duas décadas de atuação, o programa é reconhecido pelo SINIR e pelo Ministério do Meio Ambiente como a maior iniciativa do tipo sem fins lucrativos no Brasil. Em 2025, contava com catadores parceiros distribuídos em cooperativas presentes em diversos municípios e em todos os estados brasileiros. A renda média mensal estimada dos catadores parceiros fica acima do salário mínimo nacional de 2024, e mais da metade dos participantes são mulheres, o que sugere contribuição para inclusão produtiva e fortalecimento da autonomia feminina. O programa tem reconhecimento internacional pela CEPAL-ONU e se alinha aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Como salões de beleza e PMEs podem contribuir para a agenda de sustentabilidade do setor?

Salões e PMEs podem contribuir ao priorizar fornecedores aderentes a programas estruturantes de logística reversa, orientar clientes sobre a destinação adequada das embalagens pós-consumo, adotar produtos com embalagens recicláveis ou sistemas de refil e buscar insumos com origem rastreável em conformidade com o Marco da Biodiversidade. A ABIHPEC disponibiliza guias técnicos, como o Guia para Uso Sustentável da Biodiversidade Brasileira, de 2025, e a Trilha de Descarbonização do Setor, de 2023, que oferecem referências para empresas de diferentes portes estruturarem sua jornada de sustentabilidade. O acesso a esses materiais está disponível em abihpec.org.br.

Conclusão e próximos passos

O setor brasileiro de Beleza e Cuidados Pessoais apresenta trajetória consistente em sustentabilidade ao conectar cuidado, inovação, biodiversidade, clima, circularidade, logística reversa e impacto social. Essa agenda tende a ir além de obrigações regulatórias pontuais ou de narrativas reputacionais e passa a se associar a resultados ambientais, sociais e econômicos, integrados à estratégia de competitividade do setor.

Metas mensuráveis para 2030, programas estruturantes como o Mãos Pro Futuro, com 20 anos de atuação, presença ativa na bioeconomia e compromisso com a inclusão produtiva de cooperativas de catadores indicam que sustentabilidade e desenvolvimento podem caminhar juntos. Em vez de se apresentarem como opostos, esses dois vetores tendem a se reforçar mutuamente.

Para que essa trajetória avance, o Brasil depende de empresas comprometidas, regulação tecnicamente calibrada, previsibilidade jurídica e políticas públicas que reconheçam a indústria como parte essencial da solução ambiental e social. Esse alinhamento tende a criar um ambiente mais favorável para inovação, investimento e ampliação do cuidado integral com pessoas, territórios e recursos naturais.

Explore as metas 2030 e os programas estruturantes do setor

Comments