Pessimismo contamina e já piora previsões para 2016

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Por Tainara Machado e Arícia Martins

 

Sem sinais de recuperação, a economia pode amargar até quatro trimestres consecutivos de queda do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015, na comparação trimestral, avaliam economistas, tornando a crise atual mais longa do que a de 2009. O crescente pessimismo com a atividade econômica está contaminando também as expectativas para 2016. O boletim Focus, do Banco Central, que reúne as projeções de mais de 100 instituições, aponta avanço de 0,5% do PIB no ano que vem, 0,2 ponto percentual a menos do que na semana passada.

 

Alguns analistas, porém, já preveem desempenho negativo no próximo ano. Para economistas ouvidos pelo Valor, a necessidade de aumentar o esforço fiscal no próximo ano, a manutenção da confiança de empresários e consumidores em patamar deprimido e a piora do mercado de trabalho comprometeram a recuperação esperada para 2016, cenário agravado pelo ciclo mais longo de aperto monetário.

“Não necessariamente estamos no fundo do poço”, diz Rodrigo Alves de Melo, economista­chefe da Icatu Vanguarda, já que o terceiro trimestre ainda pode ser de queda do PIB. “O ajuste está começando, não está no fim. Ainda teremos alguns trimestres com queda da demanda interna em ritmo mais rápido do que a do PIB total”. Segundo Melo, a piora da economia acontece em ritmo superior ao esperado por alguns fatores, entre eles os ajustes fiscal e monetário, mas o ruído gerado pela dificuldade de aprovação das medidas no Congresso aumenta a incerteza, “um veneno para quem quer investir.” Esse entrave torna mais lento o processo de retomada da confiança, o que diminui as perspectivas para 2016.

 

A necessidade de reduzir os estoques acumulados nos últimos meses também tende a postergar a recuperação. “Sem demanda, a saída é reduzir a produção, e isso não leva dois ou três meses, é um processo que pode adentrar 2016”, afirma Melo, que prevê queda de 2% do PIB neste ano e alta de 0,4% no ano que vem. A MCM Consultores reviu seu cenário para 2016 há três semanas, quando diminuiu sua estimativa de crescimento de 1,5% para 0,5%. O economista Leandro Padulla destaca que a herança estatística deixada por 2015 será fortemente negativa, o que já impede expectativas de reação expressiva da atividade no ano seguinte. Em seus cálculos, o “carry over” para 2016 é negativo em 0,6 ponto percentual, o que significa que, se a economia não crescer no próximo ano, terá encerrado o período com retração de 0,6% sobre o ano anterior. Além desse fator estatístico e da queda adicional dos índices de confiança, comenta Padulla, o desaquecimento do mercado de trabalho, que deve continuar em 2016, também dificulta um crescimento mais expressivo.

 

Nas projeções da MCM, a taxa de desemprego nas seis principais regiões metropolitanas vai aumentar mais de um ponto entre 2015 e 2016, de 6,5% para 7,6%. Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre­FGV), também trabalha com expansão de 0,5% para o PIB no ano que vem, mas diz que esse desempenho não pode ser chamado de recuperação, tendo em vista a fraca base de comparação de 2015 ­ quando a economia deve encolher 1,8%. “Os números de 2016 ainda são muito ruins e existem riscos que precisam ser amenizados”, com destaque para a avaliação das agências de classificação de risco sobre a nota de crédito brasileira.

 

Para José Marcio Camargo, economista-­chefe da Opus Investimentos, mesmo que a atividade volte a crescer no último trimestre deste ano, o cenário para 2016 não é animador. Camargo, que também é professor da PUC­Rio, reduziu sua projeção para o PIB deste ano, de ­1,5% para recuo próximo de 2%. Para 2016, ele começou o ano com estabilidade da economia, mas agora projeta queda de 0,5%. “O governo só vai fazer parte do ajuste fiscal neste ano, então ainda vai ter contração significativa nessa área em 2016”. A segunda influência negativa para a atividade no próximo ano, afirma, é a necessidade de ajustar o déficit em conta corrente diante da alta de juros nos Estados Unidos, o que vai resultar em câmbio mais desvalorizado.

 

Isso significa que o Banco Central deve lançar mão de uma política monetária mais dura para combater esses eventos, elevando a Selic a 14,5% até setembro, com manutenção desse nível ao longo de todo o ano que vem. Mais pessimista do que a média do mercado, Camargo projeta IPCA em 6,3% no período. Um pouco mais otimista, Eduardo Velho, economista­chefe da INVX Global Partners, avalia que a recuperação foi adiada para 2016, mas estima que a retomada será muito gradual.

 

Para ele, a recessão atual pode se estender por um período mais prolongado do que observado durante a crise de 2008. Considerando dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) para datação dos ciclos econômicos, do pico ao vale, a economia ficou seis meses em processo de desaceleração entre o fim de 2008 e início de 2009, quando a reação foi bastante rápida. Agora, diz Velho, o ciclo de piora da atividade deve ser mais extenso, de dez meses, e a retomada será muito gradual, com crescimento inferior a 1,5% até 2017. Já Sergio Vale, economista­chefe da MB Associados, vê possibilidade elevada de que o baixo dinamismo da economia permaneça até 2018, não somente devido a fatores internos.

 

Até lá, é bastante provável que os EUA, a Europa ou a China iniciem um ciclo mais fraco de crescimento, eventualmente entrando em recessão. “É impossível prever isso, claro, mas os riscos ficam ainda mais próximos quanto mais tempo sem recessão se encontra a economia americana”, diz. Do lado doméstico, afirma Vale, o quadro de instabilidade política tende a continuar, devido ao enfraquecimento do governo, o que atrapalha o crescimento e pode levar as agências de classificação de risco a reavaliarem o rating brasileiro. Passados 2016 ­ ano para o qual Vale espera recuo de 0,1% do PIB, estimativa que deve ser revista para baixo ­ e 2017, 2018 poderá ser um ano de alta incerteza eleitoral, o que também é negativo para a atividade.

Fonte: Valor

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