Principais lições deste artigo
● O setor de Beleza e Cuidados Pessoais brasileiro faturou R$ 175 bilhões em 2025 e ocupa a terceira posição no mercado mundial, o que torna a agenda climática um fator central de competitividade.
● A Trilha de Descarbonização da ABIHPEC apresenta um playbook técnico baseado no GHG Protocol para que empresas de diferentes portes estruturem inventários e metas de redução de emissões nos Escopos 1, 2 e 3.
● Economia circular e logística reversa são conceitos complementares, mas distintos: a economia circular envolve ecodesign e inovação desde a concepção do produto, enquanto a logística reversa organiza a coleta e reciclagem pós-consumo, com destaque para o programa Mãos Pro Futuro.
● A COP30 em Belém e o novo mercado regulado de carbono (SBCE) ampliam as exigências de gestão climática e podem abrir oportunidades de acesso a mercados internacionais, crédito e diferenciação competitiva.
● Para aprofundar a jornada climática da sua empresa e acessar ferramentas setoriais, visite o site da ABIHPEC.
Panorama do mercado e relevância do tema clima
O Brasil é o terceiro maior mercado consumidor de Beleza e Cuidados Pessoais do mundo (Euromonitor International, 2024), atrás apenas dos Estados Unidos e da China. O setor representa cerca de 2% do PIB brasileiro e registrou crescimento de 6,8% em 2025, com projeção de expansão de 7% ao ano até 2027 (Euromonitor International).
Essa posição de destaque torna a agenda de sustentabilidade um eixo estratégico. Empresas que estruturam metas de carbono, adotam energia renovável e envolvem suas cadeias de fornecimento tendem a construir vantagens competitivas concretas, como acesso a mercados internacionais mais exigentes, condições de crédito mais favoráveis, maior resiliência operacional e reputação institucional consistente. No setor, sustentabilidade tende a funcionar menos como discurso e mais como condição crescente de operação.
Contexto regulatório e padrões do setor
O ambiente regulatório brasileiro para a agenda climática e ambiental passou por mudanças relevantes nos últimos anos. Dois marcos ajudam a estruturar o contexto em que as empresas do setor atuam:
● Lei nº 13.874/2019 (Lei de Liberdade Econômica): reforça princípios de previsibilidade, segurança jurídica e análise de impacto regulatório, premissas que o setor costuma considerar importantes para que metas ambientais se traduzam em investimento e resultados proporcionais.
● Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS, Lei nº 12.305/2010): estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, com metas de recuperação de embalagens que avançam de forma progressiva, passando de 30% para 50% até 2040.
O setor tende a reconhecer a legitimidade da ambição ambiental e a enxergar a regulação como possível indutora de inovação. A posição institucional, exercida pela ABIHPEC como porta-voz, sugere que regras tecnicamente viáveis, juridicamente seguras, harmonizadas entre entes federativos e com transição gradual tendem a incentivar investimento. Já regras fragmentadas ou desconectadas da infraestrutura disponível podem elevar custos sem garantir ganhos ambientais proporcionais.
Em 2024, o Brasil instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE, Lei nº 15.042/2024), criando um mercado regulado de carbono nacional. Esse marco amplia o horizonte de planejamento para empresas que já estruturam inventários de gases de efeito estufa e atuam no mercado voluntário de créditos de carbono, além de estimular que novas empresas iniciem essa jornada.
Trilha de Descarbonização da ABIHPEC como playbook setorial
A publicação da Trilha de Descarbonização do Setor de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, em 2023, oferece um guia técnico para que empresas, especialmente pequenas e médias, organizem sua jornada climática com base no GHG Protocol.
A Trilha estrutura o tema em torno dos três escopos de emissões reconhecidos internacionalmente. A tabela a seguir resume a distinção entre eles no contexto do setor:
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Escopo |
O que abrange |
Exemplos no setor de Beleza e Cuidados Pessoais |
Referência metodológica |
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Escopo 1 |
Emissões diretas da empresa |
Combustão em caldeiras, frotas próprias, processos industriais |
GHG Protocol / ISO 14064 |
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Escopo 2 |
Emissões indiretas de energia adquirida |
Eletricidade consumida nas fábricas e escritórios |
GHG Protocol / ISO 14064 |
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Escopo 3 |
Demais emissões indiretas da cadeia de valor |
Fornecedores de ingredientes e embalagens, logística terceirizada, uso e descarte de produtos |
GHG Protocol Corporate Value Chain Standard |
As principais frentes de ação sugeridas pela Trilha incluem eficiência energética nas operações, ampliação do uso de energia renovável, ecoeficiência logística, inovação em embalagens e formulações e engajamento de fornecedores para redução de emissões no Escopo 3. O Escopo 3 costuma representar a maior parcela das emissões totais de empresas do setor e tende a concentrar oportunidades relevantes de diferenciação competitiva e gestão de riscos na cadeia.
A própria ABIHPEC busca refletir esse compromisso na prática. Em coerência com a orientação técnica que oferece ao setor, a associação compensou suas emissões institucionais do inventário de 2023 em 2024, por meio de créditos de carbono REDD+ em projetos nas regiões amazônica, no Acre, e do cerrado, em Goiás, reforçando a conexão entre ação climática e conservação da biodiversidade brasileira.
Economia circular versus logística reversa
O uso indistinto dos termos economia circular e logística reversa costuma gerar confusão na agenda de sustentabilidade do setor. Esses conceitos se relacionam, mas possuem escopos e instrumentos diferentes.
A economia circular descreve um modelo econômico amplo de geração e retenção de valor. Esse modelo começa antes do descarte, na etapa de concepção: ecodesign das embalagens, escolha de materiais, incorporação de conteúdo reciclado, modelos de refil, redução de desperdício industrial e inovação em formulações. Uma política circular efetiva tende a considerar infraestrutura disponível, escala, qualidade dos materiais, viabilidade econômica e mercado para reciclados, em vez de se limitar a metas pós-consumo.
A logística reversa funciona como um instrumento específico de responsabilidade compartilhada no pós-consumo. Ela organiza coleta, triagem, reciclagem, rastreabilidade e atendimento às exigências regulatórias. A logística reversa integra a agenda de circularidade, mas não substitui as demais etapas de design e produção.
O Mãos Pro Futuro é a principal referência setorial de logística reversa estruturante. O programa foi lançado em 2006, quatro anos antes da PNRS, e é reconhecido pelo Ministério do Meio Ambiente como o maior programa estruturante de logística reversa sem fins lucrativos do Brasil. O programa direciona a maior parte de seu orçamento anual diretamente às cooperativas parceiras, fortalecendo a cadeia de reciclagem.
Conheça mais sobre o programa Mãos Pro Futuro e outras iniciativas de logística reversa do setor.
Biodiversidade e bioeconomia como diferenciais estratégicos do Brasil
A biodiversidade brasileira oferece uma base relevante para a bioeconomia, e o setor de Beleza e Cuidados Pessoais mantém relação histórica com ativos da sociobiodiversidade. Ingredientes da Amazônia, do Cerrado, da Mata Atlântica, da Caatinga e do Pantanal sustentam processos de inovação, diferenciação internacional e desenvolvimento territorial.
Essa relação envolve mais do que o uso de ingredientes. O setor construiu reputação global em torno de ativos amazônicos, com repartição de benefícios com comunidades fornecedoras e apoio a modelos produtivos sustentáveis. Há iniciativas que contribuem para a conservação de milhões de hectares de floresta por meio de insumos rastreáveis e modelos produtivos responsáveis.
A ABIHPEC participa do CGEN (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético) desde 2017 e publicou, em 2025, a versão atualizada do Guia Orientativo para Acesso à Biodiversidade Brasileira, que funciona como referência prática para empresas que utilizam ativos da biodiversidade nacional em seus produtos.
Para que a bioeconomia avance como vetor de competitividade, o setor costuma defender segurança jurídica, regras claras, rastreabilidade, respeito às comunidades e um ambiente regulatório que incentive a inovação no Brasil. A biodiversidade tende a ser vista não apenas como ativo ambiental, mas também como base de inovação, diferenciação e desenvolvimento territorial.
COP30 e relevância para o setor
A realização da COP30 em Belém, na Amazônia, em 2025, colocou o Brasil no centro do debate climático global e ampliou a visibilidade da agenda de descarbonização para o setor de Beleza e Cuidados Pessoais. A ABIHPEC participou das COPs 28, em Dubai, 29, em Baku, e 30, em Belém, contribuindo para o diálogo sobre caminhos de transição para empresas industriais.
Para o setor, a COP30 tende a ser um marco estratégico em três dimensões:
● Acesso a mercados: compradores internacionais, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, vêm exigindo evidências de gestão climática de seus fornecedores. O acordo Mercosul–União Europeia, recentemente assinado, amplia esse horizonte de exigência e oportunidade.
● Acesso a crédito e investimento: instituições financeiras e fundos de investimento incorporam critérios climáticos em suas decisões. Empresas com inventários estruturados e metas de carbono claras podem acessar condições mais favoráveis.
● Posicionamento institucional: o Brasil como sede da COP30 reforça a relevância da agenda climática para a indústria nacional, incluindo o setor de Beleza e Cuidados Pessoais.
Roteiro prático de 5 passos para empresas de todos os portes
A Trilha de Descarbonização da ABIHPEC sugere um roteiro que pode ser adaptado por empresas de diferentes portes. Os cinco passos a seguir sintetizam essa jornada:
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Estruturar o inventário de carbono: mapear emissões dos Escopos 1, 2 e 3 com base no GHG Protocol. Pequenas e médias empresas podem iniciar com um inventário simplificado dos Escopos 1 e 2 e avançar gradualmente para o Escopo 3.
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Definir metas de redução: estabelecer metas de curto, médio e longo prazo alinhadas a frameworks reconhecidos, como o Science Based Targets (SBT), e compatíveis com a capacidade operacional da empresa. Metas claras tendem a facilitar o planejamento, a execução e a mensuração de resultados.
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Implementar ações de mitigação: priorizar eficiência energética, transição para energia renovável, ecoeficiência logística, inovação em embalagens, incluindo conteúdo reciclado e modelos de refil, e engajamento de fornecedores para redução de emissões na cadeia.
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Utilizar créditos de carbono como instrumento complementar: para emissões residuais que ainda não podem ser evitadas, créditos de carbono, especialmente projetos REDD+ em biomas brasileiros, podem funcionar como instrumento de transição e compensação, sem substituir as ações de mitigação.
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Engajar a cadeia e comunicar com transparência: envolver fornecedores de ingredientes e embalagens, adotar plataformas de disclosure reconhecidas, como o CDP, e comunicar resultados com base em dados verificáveis, evitando alegações que não possam ser comprovadas.
Acesse a Trilha de Descarbonização completa e outras ferramentas práticas para sua empresa.
Perguntas frequentes
O que é a Trilha de Descarbonização da ABIHPEC e para quem ela se destina?
A Trilha de Descarbonização do Setor de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, publicada pela ABIHPEC em 2023, já foi apresentada neste artigo como um guia técnico baseado no GHG Protocol. Ela foi desenvolvida especialmente para atender empresas de todos os portes, incluindo pequenas e médias que muitas vezes não dispõem de equipe especializada em ESG, e cobre desde os fundamentos de inventário de emissões até a priorização de ações de mitigação nos Escopos 1, 2 e 3. O documento funciona como referência prática adaptada à realidade da indústria brasileira de Beleza e Cuidados Pessoais.
Qual é a diferença entre Escopo 1, Escopo 2 e Escopo 3 no contexto do setor de Beleza e Cuidados Pessoais?
O Escopo 1 abrange as emissões diretas da própria empresa, como a combustão em caldeiras industriais e o uso de frotas próprias. O Escopo 2 cobre as emissões indiretas associadas à energia elétrica adquirida e consumida nas operações. O Escopo 3 é o mais abrangente e inclui as demais emissões indiretas ao longo da cadeia de valor, como as geradas por fornecedores de ingredientes e embalagens, pela logística terceirizada e pelo uso e descarte dos produtos pelos consumidores. No setor de Beleza e Cuidados Pessoais, o Escopo 3 tende a representar a maior parcela das emissões totais, o que torna o engajamento de fornecedores e a inovação em embalagens frentes prioritárias para quem busca reduzir sua pegada climática de forma consistente.
Economia circular e logística reversa são a mesma coisa?
Economia circular e logística reversa se complementam, mas não são equivalentes. Economia circular descreve um modelo econômico que começa antes do descarte e envolve o design das embalagens, a escolha de materiais, a incorporação de conteúdo reciclado, os modelos de refil e a inovação em formulações. Logística reversa é um instrumento específico de responsabilidade compartilhada no pós-consumo, voltado a estruturar a coleta, triagem, reciclagem e rastreabilidade de embalagens após o uso. O Mãos Pro Futuro é a principal referência setorial de logística reversa estruturante, com atuação pioneira, multissetorial e nacional. O programa integra a agenda de circularidade do setor, mas não substitui as demais estratégias de economia circular.
Por que a COP30 é relevante para empresas do setor de Beleza e Cuidados Pessoais?
A COP30, realizada em Belém em 2025, colocou o Brasil em posição de destaque no debate climático global e ampliou as expectativas em relação à gestão climática em toda a cadeia produtiva nacional. Para o setor de Beleza e Cuidados Pessoais, esse marco se conecta a três dimensões principais: acesso a mercados internacionais, especialmente no contexto do acordo Mercosul–União Europeia, que tende a exigir evidências crescentes de gestão climática; acesso a crédito e investimento, com instituições financeiras incorporando critérios climáticos em suas decisões; e posicionamento institucional, com o Brasil como sede reforçando a urgência e a oportunidade da agenda para a indústria. Empresas que estruturam metas de carbono e comunicam resultados com transparência tendem a construir vantagens competitivas nesse cenário.
Como uma pequena ou média empresa do setor pode começar sua jornada de descarbonização?
Uma pequena ou média empresa pode iniciar sua jornada de descarbonização estruturando um inventário de emissões dos Escopos 1 e 2 com base no GHG Protocol. Esse levantamento inicial ajuda a identificar as principais fontes de emissão da operação e a priorizar ações de mitigação com maior impacto, como a transição para energia renovável e a melhoria da eficiência energética. A expansão para o Escopo 3 pode ocorrer de forma progressiva, à medida que a empresa fortalece sua governança climática. Créditos de carbono, especialmente em projetos REDD+ em biomas brasileiros, podem funcionar como instrumento complementar para compensar emissões residuais durante a transição. A ABIHPEC disponibiliza suporte técnico e conteúdo especializado para empresas associadas que desejam iniciar ou aprofundar essa jornada.

