Principais lições deste artigo
● O setor brasileiro de Beleza e Cuidados Pessoais faturou R$ 175 bilhões em 2025 e ocupa o 3º lugar no ranking global, o que sugere que escala econômica e sustentabilidade podem caminhar juntas.
● A Trilha de Descarbonização da ABIHPEC, baseada no GHG Protocol, funciona como um guia prático para empresas de todos os portes estruturarem sua governança climática.
● Embalagens refiláveis, conteúdo reciclado e uso de energia renovável tendem a reduzir emissões e a fortalecer a competitividade em mercados internacionais exigentes.
● O programa Mãos Pro Futuro já evitou mais de 5 milhões de toneladas de GEE desde 2013, o que indica que logística reversa estruturada pode gerar impacto mensurável e inclusão social.
● Para aprofundar sua jornada de descarbonização e conhecer as ferramentas da ABIHPEC, acesse o portal da ABIHPEC.
2. Ambiente regulatório e referências técnicas
A jornada de descarbonização do setor conta com um instrumento técnico específico: a Trilha de Descarbonização do Setor de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, publicada pela ABIHPEC em 2023. O documento orienta empresas de todos os portes, com ênfase nas pequenas e médias, desde os fundamentos do inventário de gases de efeito estufa (GEE) até a priorização de ações de mitigação, com base na metodologia do GHG Protocol. A Trilha apresenta um caminho estruturado para que empresas organizem sua governança climática com consistência metodológica e comparabilidade.
No plano regulatório, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) estabelece o marco da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e define metas progressivas de recuperação de embalagens. A meta nacional de recuperação de embalagens está em trajetória de ampliação, até 50% até 2040, o que torna mais relevante estruturar sistemas de logística reversa e práticas de economia circular ao longo de toda a cadeia produtiva. A efetividade dessas metas depende de calibragem técnica, segurança jurídica, harmonização federativa e prazos de transição compatíveis com a infraestrutura disponível e com a capacidade de fornecimento de materiais reciclados em escala e qualidade.
Também em 2026, novas regras para reciclagem de plástico passaram a exigir, segundo regulamentação vigente, um mínimo de 22% de conteúdo reciclado em embalagens plásticas novas neste ano, com progressão até 40% em 2040, além de metas de coleta e reciclagem de 32% das embalagens plásticas descartáveis, chegando a 50% em 2040. A ambição regulatória é legítima, e sua implementação tende a ser mais efetiva quando considera viabilidade técnica, sustentabilidade econômica e disponibilidade real de massa reciclada com qualidade adequada. Essas exigências impactam cada categoria de produto de forma distinta, o que sugere a necessidade de estratégias específicas por segmento.
3. Análise por categorias
A descarbonização no setor de Beleza e Cuidados Pessoais não é uma agenda uniforme, pois se expressa de formas diferentes em cada categoria de produto. Em cuidados com a pele, a inovação em formulações com menor pegada de carbono e o ecodesign de embalagens são vetores centrais, já que o peso e o tipo de embalagem costumam representar parcela relevante do impacto total. Em cuidados com o cabelo, categoria em que o Brasil é referência em tecnologia e diversidade de soluções, o foco tende a se deslocar para a eficiência energética nos processos produtivos e para a adoção de embalagens com conteúdo reciclado, em função do volume de produção e da intensidade energética dos processos de formulação. Já em fragrâncias e perfumaria, em que ingredientes naturais podem representar parte importante da formulação, a rastreabilidade de ingredientes de origem natural e a gestão responsável da cadeia de fornecimento aproximam a agenda climática da agenda de biodiversidade. Em proteção solar, a inovação em formulações e embalagens contribui para reduzir impactos ao longo do ciclo de vida do produto, ao mesmo tempo em que favorece a proteção contra raios UVA e UVB, inclusive em dias nublados.
Em todas essas categorias, a descarbonização avança por meio de práticas que vão do inventário de emissões à eficiência logística, passando pela ampliação do uso de energia renovável, pela inovação em materiais e pelo engajamento de fornecedores. O setor costuma ser classificado como menos intensivo em emissões quando comparado a outros segmentos industriais, o que torna sua postura voluntária e propositiva diante da agenda climática um elemento relevante para o cuidado integral, que envolve bem-estar físico, mental e social.
4. Modelos e escolhas: trade-offs que geram competitividade
A descarbonização no setor de Beleza e Cuidados Pessoais costuma ser tratada como fator de competitividade, eficiência e acesso a mercados, e não apenas como obrigação de reporte. Embalagens refiláveis reduzem o volume de material utilizado e respondem a uma demanda crescente de consumidores e varejistas por soluções percebidas como mais sustentáveis. A incorporação de conteúdo reciclado pós-consumo em embalagens plásticas e de vidro, quando tecnicamente e sanitariamente viável, amplia a circularidade e tende a diferenciar produtos em mercados internacionais cada vez mais exigentes.
A ampliação do uso de energia renovável nas operações industriais reduz emissões de Escopo 1 e 2 e pode contribuir para a competitividade de longo prazo. A eficiência logística, com rotas otimizadas, consolidação de cargas e escolha de modal mais eficiente, reduz emissões de Escopo 3 e custos operacionais ao mesmo tempo. Essas escolhas influenciam diretamente o acesso a mercados internacionais. O recém-assinado acordo Mercosul–União Europeia, por exemplo, amplia o acesso do setor a mercados europeus que adotam critérios de sustentabilidade como requisito de entrada, e não apenas como diferencial.
Em 2025, as exportações totais do setor ultrapassaram US$ 1 bilhão pela primeira vez, com crescimento de 20,1% sobre 2024, atendendo 189 países. A sustentabilidade integra essa equação competitiva e se conecta ao cuidado integral, ao favorecer cadeias produtivas mais estruturadas e relações de consumo mais conscientes.
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5. Estrutura prática: cinco passos para empresas
A Trilha de Descarbonização da ABIHPEC organiza a jornada climática das empresas em etapas progressivas que ajudam a transformar compromissos em resultados mensuráveis. Seguir esses cinco passos pode apoiar empresas de diferentes portes a estruturar sua governança climática com consistência metodológica, priorizar investimentos e demonstrar impacto a seus públicos de interesse. Os cinco passos centrais são:
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Inventário GHG Protocol: mapear e quantificar as emissões de GEE nos Escopos 1, 2 e 3, com consistência metodológica baseada no GHG Protocol e na norma ISO 14067, garantindo comparabilidade ao longo do tempo.
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Definição de metas: estabelecer metas de redução de emissões com base nos dados do inventário, alinhadas a frameworks científicos como o Science Based Targets Network (SBTN), que integra clima e natureza na gestão corporativa.
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Fontes renováveis: ampliar a participação de energia renovável na matriz energética das operações, reduzindo emissões de Escopo 1 e 2 e contribuindo para a eficiência de longo prazo.
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Ecodesign de embalagens: incorporar critérios de circularidade desde a concepção das embalagens, com redução de peso, simplificação de materiais, aumento de reciclabilidade, incorporação de conteúdo reciclado e desenvolvimento de soluções refiláveis.
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Engajamento de fornecedores: estender a gestão climática à cadeia de suprimentos, priorizando fornecedores com práticas de rastreabilidade, uso sustentável da biodiversidade e compromissos de redução de emissões de Escopo 3.
Esses cinco passos oferecem a estrutura metodológica. As ações a seguir traduzem essa estrutura em decisões operacionais que empresas podem começar a implementar.
6. Checklist de ações prioritárias
Para empresas que iniciam ou fortalecem sua jornada de descarbonização, as ações a seguir traduzem os cinco passos da Trilha em decisões práticas. Essas ações costumam ser priorizadas por seu impacto mensurável na redução de emissões, por sua viabilidade de implementação e por contribuírem, ao mesmo tempo, para competitividade e inclusão social:
● Contratar energia elétrica de fonte renovável, como solar, eólica ou hídrica, para as operações industriais e logísticas.
● Garantir rastreabilidade de ingredientes de origem da biodiversidade brasileira, com conformidade ao Marco da Biodiversidade (Lei nº 13.123/2015) e ao SisGen.
● Definir metas progressivas de conteúdo reciclado nas embalagens, com plano de implementação compatível com a disponibilidade de massa reciclada em escala e qualidade.
● Apoiar cooperativas de catadores parceiras, fortalecendo a cadeia de logística reversa e gerando inclusão socioprodutiva.
● Adotar plataformas de disclosure climático, como o CDP, para ampliar a transparência e o acesso a investidores e mercados internacionais.
● Compensar emissões residuais por meio de créditos de carbono verificados, preferencialmente vinculados a projetos de conservação da biodiversidade brasileira, como projetos REDD+ desenvolvidos no Brasil.
7. Erros e armadilhas comuns
Um dos equívocos frequentes na agenda de sustentabilidade do setor é a confusão entre economia circular e logística reversa. Conforme mencionado ao discutir a PNRS, são conceitos distintos e complementares, mas não equivalentes.
A economia circular é um modelo econômico amplo de geração e retenção de valor, que começa antes do descarte, no design das embalagens, na escolha de materiais, na eficiência produtiva, na redução de desperdícios, na reciclabilidade, no conteúdo reciclado, nos modelos de refil, na inovação e na reinserção de materiais na cadeia produtiva. A logística reversa, por sua vez, é um instrumento específico de responsabilidade compartilhada no pós-consumo, voltado a estruturar coleta, triagem, reciclagem, rastreabilidade e cumprimento regulatório. Confundir as duas abordagens pode levar a políticas públicas que reduzem a circularidade à imposição de metas pós-consumo, sem considerar infraestrutura, escala, qualidade de materiais e viabilidade econômica.
Outro ponto sensível é o estabelecimento de metas de descarbonização sem plano de implementação correspondente, sem infraestrutura, sem engajamento da cadeia de fornecimento e sem análise de viabilidade econômica das ações. Metas com plano, planos com execução e execução com resultado comprovável formam uma sequência que tende a transformar compromisso em impacto concreto.
8. Ecossistema de parcerias
A descarbonização do setor de Beleza e Cuidados Pessoais ocorre em um ecossistema de parcerias institucionais que apoia essa jornada. A articulação entre entidades públicas, privadas e organizações da sociedade civil contribui para alinhar competitividade, inovação e cuidado integral.
A ApexBrasil, parceira no programa Beautycare Brazil, conecta a sustentabilidade à competitividade internacional, pois empresas com práticas ESG consolidadas tendem a ter acesso diferenciado a mercados exigentes. Essa inserção internacional exige conformidade regulatória rigorosa, razão pela qual a Anvisa mantém diálogo técnico contínuo com o setor, assegurando que inovação em formulações e embalagens sustentáveis ocorra dentro do marco regulatório de segurança. No campo das políticas públicas ambientais, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima atua como interlocutor central nas pautas da PNRS, biodiversidade e economia circular. As cooperativas de catadores parceiras do programa Mãos Pro Futuro formam elo fundamental da cadeia de logística reversa, com presença em todas as 27 unidades federativas. Associações setoriais como ABIPLA, ABIMAPI, ABRAFATI, Abióptica e ADIPEC integram o programa de forma multissetorial, ampliando escala e impacto.
9. Mãos Pro Futuro: resultados verificáveis
O programa Mãos Pro Futuro é uma referência estruturante de logística reversa do setor de Beleza e Cuidados Pessoais. Lançado em 2006, quatro anos antes da Política Nacional de Resíduos Sólidos, completou 20 anos em abril de 2026 e é reconhecido pelo Ministério do Meio Ambiente como o maior programa estruturante de logística reversa sem fins lucrativos do Brasil.
Em 2025, o programa recuperou cerca de 215 mil toneladas de embalagens pós-consumo, resultado 34,7% superando a meta de 32% e 197.475 toneladas. Esse volume equivale a centenas de milhares de caminhões de embalagens que retornam à cadeia produtiva, o que ajuda a visualizar a escala do resultado. Desde 2013, o programa acumula mais de 1,5 milhão de toneladas recuperadas e o impacto climático mencionado anteriormente, com mais de 5 milhões de toneladas de gases de efeito estufa evitadas, com metodologia baseada no GHG Protocol e na ISO 14067. O programa apoia mais de 200 cooperativas de catadores parceiras, beneficia cerca de 6.000 catadores em 150 municípios brasileiros e direciona a maior parte de seu orçamento anual diretamente às organizações de catadores, o que reforça a dimensão social da logística reversa.
O Mãos Pro Futuro recebeu reconhecimento da CEPAL-ONU em 2019 e 2021 como caso de sustentabilidade, e da CNI/FIESP em 2025 como caso de economia circular para América Latina e Caribe. O programa contribui para 14 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, conectando clima, inclusão social e cuidado com os territórios.
Conheça o programa Mãos Pro Futuro e como sua empresa pode participar.
Perguntas frequentes
Qual é o papel do setor de Beleza e Cuidados Pessoais na redução de emissões de carbono no Brasil?
O setor de Beleza e Cuidados Pessoais costuma tratar a agenda climática como fator de eficiência, competitividade e acesso a mercados, e não apenas como obrigação de reporte. As empresas do setor adotam inventários de gases de efeito estufa baseados no GHG Protocol, ampliam o uso de energia renovável, investem em ecodesign de embalagens, otimizam a logística e engajam fornecedores em práticas de redução de emissões. O programa Mãos Pro Futuro, referência nacional de logística reversa, acumula mais de 5 milhões de toneladas de GEE evitadas desde 2013, com metodologia verificada. Parte das empresas também compensa emissões residuais por meio de créditos de carbono vinculados a projetos de conservação da biodiversidade brasileira, como projetos REDD+ desenvolvidos em diferentes biomas.
O que é a Trilha de Descarbonização da ABIHPEC?
A Trilha de Descarbonização do Setor de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos é um guia técnico publicado pela ABIHPEC em 2023, voltado a orientar empresas, especialmente pequenas e médias, na estruturação de sua jornada climática. O documento aborda desde os fundamentos do inventário de GEE, com base no GHG Protocol, até a definição de metas, a priorização de ações de mitigação e o engajamento da cadeia de fornecimento. A Trilha funciona como ferramenta prática que traduz compromissos climáticos em passos concretos, adaptados à realidade operacional e ao porte de cada empresa do setor.
Como o consumidor pode contribuir com a agenda de sustentabilidade do setor?
O consumidor tem papel relevante na cadeia de sustentabilidade do setor. Optar por produtos de beleza e cuidados pessoais com embalagens recicláveis ou refiláveis, destinar corretamente as embalagens pós-consumo à coleta seletiva e apoiar cooperativas de catadores por meio da separação adequada dos resíduos são pequenos gestos concretos. Valorizar marcas e produtos com compromissos verificáveis de sustentabilidade, como inventários de carbono, conteúdo reciclado e rastreabilidade de ingredientes, também contribui para que a agenda avance em toda a cadeia. A escolha no ponto de venda influencia decisões de formulação, embalagem e logística das empresas do setor, consolidando uma cadeia produtiva mais sustentável e alinhada ao conceito de cuidado integral.
Conclusão e chamada para ação institucional
O setor brasileiro de Beleza e Cuidados Pessoais avança em sua jornada de descarbonização com consistência e capilaridade. Essa trajetória climática não se dissocia da dimensão social: o Instituto ABIHPEC integra a agenda com iniciativas voltadas à empregabilidade, à equidade racial e à prevenção à violência contra crianças e adolescentes, demonstrando que cuidar do clima e cuidar das pessoas são compromissos indissociáveis. Com a escala econômica e a presença mencionadas no início deste artigo, o setor sugere que sustentabilidade e competitividade não são agendas opostas, mas dimensões de uma mesma estratégia. A Trilha de Descarbonização da ABIHPEC, o programa Mãos Pro Futuro e o ecossistema de parcerias institucionais ilustram como a indústria pode integrar clima, inovação e inclusão social. Cuidar das pessoas, das comunidades, da biodiversidade e do clima se apresenta como uma extensão natural do conceito de cuidado integral, que envolve corpo, mente e relações.
Acesse a Trilha de Descarbonização e inicie sua jornada climática.

